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Entrevista a Isabel Lobo | webV

Entrevista a Isabel Lobo

Por Ricardo Teixeira

 

Isabel Lobo, natural de Senhora da Hora em Matosinhos, começou a dar os primeiros passos nas danças de salão aos 13 anos na Bicas da Senhora da Hora – Associação Cultural. Mais tarde, aos 17 anos entrou para o Ginasiano (Vila Nova de Gaia), tendo depois aos 20 ingressado na licenciatura em dança na Escola Superior de Dança (Lisboa). Em 2016, com 24 anos lançou-se numa aventura internacional, estagiando como bailarina nas companhias LaMov em Saragoça e na OtraDanza em Elche, Alicante.

RT: Porque é que só começaste a fazer aulas de dança aos 13 anos? Antes disso era uma área que não te despertava interesse?

IL: Desde pequena que a dança me despertava interesse fosse na televisão, ver apresentações, etc… Cheguei a frequentar aulas de ballet em pequena mas na altura não gostava nada. Até que os anos foram passando e na escola, com os tais 13 anos ingressei num grupo de dança mais vocacionado para as danças urbanas e então foi aí que procurei começar a ter aulas de dança, mais propriamente Hip hop. Mas a escola mais próxima e na qual já conhecia a professora não tinha esse estilo e incentivaram me a experimentar as aulas de danças de salão, que frequentei cerca de três anos. Depois disso, foi um “tirinho” começar as aulas de Clássico porque comecei a ajudar a professora nos espetáculos de Ballet, na preparação das alunas para os espetáculos e aulas. Entretanto no Ballet devo ter começado com uns 15 anos mais ou menos…

RT: Quando é que surgiu o Contemporâneo na tua vida e quando e como é que percebeste que era o estilo com que mais te identificavas?

IL: Surgiu apenas quando entrei no Ginasiano. Até então não tinha qualquer noção do que era concretamente. Como é óbvio identifiquei me de imediato por ser um estilo com o qual o meu corpo melhor se identificava até porque ainda não tinha uma linguagem definida ou um formato de movimento definido ou “instalado” se assim se pode dizer. E em termos físicos, também percebi que o meu corpo não estava preparado para a técnica de Clássico, por isso teria que a usar como uma base e reforço mas não como linha de trabalho a seguir. Para além disso, o Contemporâneo é mesmo aquilo com que mais me identifico também pelas possibilidades de exploração que me trouxe e continua a trazer.

RT: Depois de acabar o Ginasiano foste para a Escola Superior de Dança. Quais foram as maiores diferenças que encontraste entre uma escola e outra?

IL: Acima de tudo, no Ginasiano existia um maior rigor no que diz respeito à indumentária usada nas aulas e tínhamos mais variedade de aulas técnicas em cada dia, sendo que é uma escola que trabalha bastante as bases. Já na Escola Superior de Dança somos mais estimulados na criação das nossas coreografias, podendo também interpretar criações de outros colegas da escola. Para além disso, temos a oportunidade de interpretar peças de criadores conceituados na cadeira de “Repertório”. São escolas muito diferentes.

RT: Foste estagiar para duas companhias fora de Portugal. Porquê? Tentaste estágio nalguma companhia portuguesa?

IL: Candidatei me no âmbito do programa Erasmus + que por si só já impulsiona a ida para o estrangeiro. A ideia também foi essa: sair do país e experimentar o que existe no exterior para depois voltar e apostar por cá. No programa português não temos a possibilidade de estagiar em companhias nacionais durante ou depois da licenciatura, o que acontece na formação equivalente noutros países, durante o 4º ano do curso. No ensino português terminamos três anos de licenciatura sem saber o que é estar numa companhia e sem dúvida que este estágio de sete meses têm sido de total aprendizagem em termos de trabalho enquanto bailarina. A única hipótese que temos de estagiar em companhias portuguesas é abordar directamente as que existem e esperar que nos permitam um estágio através do qual possamos ganhar alguma experiência.

RT: Para além do período que passaste em Espanha, durante a licenciatura fizeste Erasmus também na Fontysh (Tilburg, Holanda). Quais foram as principais diferenças que encontraste entre estes países e Portugal no que diz respeito às artes?

IL: Senti que são povos mais receptivos à cultura no seu todo, mais predispostos para ir a uma sala de espectáculos ver seja dança, teatro ou um concerto. Já nós somos mais povo de encher estádios e recintos para festivais de verão. As idas ao teatro e principalmente a espectáculos de dança são hábitos que ainda estão a entrar nos nossos costumes. Em relação à abordagem na dança senti que estão mais virados para a performance/ dança teatro o que para mim foi um pouco complicado porque na Fontys senti que puxavam muito por esse lado nos alunos durante as aulas e posteriormente nos trabalhos que tínhamos que apresentar.

RT: Entre bailarinos, coreógrafos e companhias, quais são as tuas referências portuguesas e internacionais no mundo da dança?

IL: Cristina Planas Leitão, Elizabeth Lambeck, Daniel Cardoso (Quorum Ballet), Patrícia Henriques, São Castro e António Cabrita, Rui Lopes Graça, Akram Khan, Ohad Naharin, Sharon Fridman e Asun Noales.

RT: Pertencendo tu a uma nova geração de bailarinos, o que é que pensas que deveria ser feito para melhorar a dança em Portugal?

IL: Acho que existe muita coisa que deveria ser alterada. No que diz respeito ao ensino por exemplo, como referi anteriormente quanto à minha escolha em fazer estes estágios fora de Portugal, penso que deveria fazer parte do programa de ensino superior em dança um último ano que nos envolvesse mais com o mercado de trabalho e o mundo real da área em questão. No formato actual acabamos uma licenciatura de três anos apenas a fazer aulas, trabalhos e poucas apresentações públicas. E sem dúvida que um ano em que pudéssemos integrar companhias como estagiários nos daria um grande empurrão para início de carreira. Para além disso, e como já foi referido muitas vezes por muitas pessoas, é necessário que sejam disponibilizados mais apoios aos novos artistas para produzirem as suas criações e mais facilidade em levar esses mesmos trabalhos a mais salas de espectáculos, que deveriam abrir mais as suas portas a novos projectos e conceitos. Aliás quando me refiro a apoios, estes não têm que ser sempre financeiros. Por exemplo, o facto de existir uma maior abertura das salas de espectáculos ou uma maior disponibilidade de espaços que possam ser usados para ensaios, já seriam grandes ajudas.

RT: Sentes que a tua geração tenta trabalhar mesmo sem apoios ou que de alguma forma fica impedida de o fazer?

IL: Sim, de uma forma geral nós temos vontade de trabalhar e dançar muito! O meu receio é que a nossa vontade de trabalhar seja tanta que, com isso algumas pessoas se “aproveitem” de certa forma e com isso o trabalho em geral na dança comece a ficar mais desvalorizado. Ou então, com tantos “nãos” que se vão recebendo acabemos por ir desistindo de tentar…

RT: Esses “nãos” sempre existiram. Mas achas que hoje a desistência é mais frequente? Porquê?

IL: Penso que sim. Aliás temo que muitos nem cheguem a tentar porque já suspeitam que as respostas vão ser negativas. E por causa disso, desiste-se por vezes demasiado cedo de procurar. E muitos que querem mesmo dançar acabam por largar essa ideia e dedicar-se apenas ao ensino ou começam a trabalhar em áreas totalmente diferentes daquilo que estudaram.

RT: Como é que vês o futuro da dança em Portugal?

IL: Essa é uma pergunta difícil visto que neste momento é tudo muito incerto, tanto em Portugal como internacionalmente. Acima de tudo penso que nós artistas devemos continuar a fazer aquilo que gostamos e queremos apesar das barreiras que possamos encontrar. Esse já é um sinal que o futuro é possível mesmo que não seja como o imaginamos. Mas acho que devemos continuar a fazê-lo no nosso país primeiro e depois tentar levar o nosso trabalho e nome para fora. Somos um país muito pequeno, e muitos nem se lembram que existimos. Mas estamos aqui e prontos a levar a dança em Portugal muito mais longe!

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Autor: webV

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