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oscares 2017

Especial Óscares 2017

Aproximando-se rapidamente mais um serão de Óscares, fazemos um especial assinalando o momento do ano em que mais se fala de cinema. Este é um ano com nomeados mais equilibrados, vários bons candidatos a quem as estatuetas ficariam bem entregues, mas também um ano em que não existe nenhuma obra prima que se destaque particularmente. Do cinema independente de Moonlight, ao retrato do Texas profundo, deserto e abandonado, de Hell or High Water; do revivalismo musical de La La Land ao regresso em grande forma de Mel Gibson com Hacksaw Ridge; das histórias dos heróis anónimos de Hidden Figures à odisseia de Lion; do drama silencioso de Manchester by the Sea ao drama expansivo de Fences, não esquecendo o misterioso Arrival. É um ano versátil e interessante para o cinema americano. Estas são as nossas previsões e lembranças para os Óscares de 2017.
 
As notas aos 9 nomeados para melhor filme
 
Arrival
 
Fences
 
Hacksaw Ridge
 
Hell or High Water
 
Hidden Figures
 
La La Land
 
Lion
 
Manchester by the Sea
 
Moonlight
 
 
As previsões, preferências e potenciais surpresas:
 
Óscar de melhor filme
Quem vai ganhar – La La Land
Quem devia ganhar – Hell or High Water
Quem pode fazer uma surpresa – Moonlight
 
É muito difícil saber quem vai ganhar. Tudo indica que seja La La Land e o facto de ser um filme passado em Hollywood, revivalista de um género que teve uma imponente idade de ouro no cinema americano só ajuda. Ainda assim a relevância social, o retrato despretensioso da América rural e profunda, a recente eleição de Trump (muito votado nestas áreas) e a qualidade de realização de Hell or High Water faria dele provavelmente o mais justo vencedor do Óscar de melhor filme. A surpresa, e seria um vencedor também justo, pode ser Moonlight.
 
Óscar de melhor actriz
Quem vai ganhar – Emma Stone (La La Land)
Quem devia ganhar – Isabelle Huppert (Elle)
Quem pode fazer uma surpresa – Natalie Portman (Jackie)
 
Uma categoria em que não existe favorita destacada. Seria justo que Huppert vencesse pelo seu fabuloso papel em Elle, mas o facto do filme ter sido pouco visto e Emma Stone ser a nova cara feminina de Hollywood podem fazer com que esta última vença.
 
Óscar de melhor actor
Quem vai ganhar – Casey Affleck (Manchester by the Sea)
Quem devia ganhar – Casey Affleck (Manchester by the Sea)
Quem pode fazer uma surpresa – Denzel Washington (Fences)
 
Parece ser justo e pacífico que o drama interior de Casey Affleck em Manchester by the Sea seja o grande vencedor. Ainda assim Hollywood tem uma grande admiração por Denzel Washington que pode vir a ganhar aqui o seu terceiro Óscar.
 
Óscar de melhor actriz secundária
Quem vai ganhar – Viola Davis (Fences)
Quem devia ganhar – Michelle Williams (Manchester by the Sea)
Quem pode fazer uma surpresa – Nicole Kidman (Lion)
 
O papel de continuada solidez de Viola Davis ao longo de Fences, e o facto de nunca ter ganho o Óscar, deve fazer com que vença justamente. Ainda assim, tanto Michelle Williams e Nicole Kidman, apesar de terem papéis mais pequenos e ainda mais secundários nos seus filmes, conseguem ambas numa cena específica atingir níveis interpretativos de intesidade espantosa a que Viola Davis nunca chega ao longo de Fences.
 
Óscar de melhor actor secundário
Quem vai ganhar – Mahershala Ali (Moonlight)
Quem devia ganhar – Mahershala Ali (Moonlight)
Quem pode fazer uma surpresa – Michael Shannon (Nocturnal Animals)
 
É justo que Mahershala Ali vença com o papel específico que tem em Moonlight, bússola constante na interpretação do primeiro terço de Moonlight. Ao mesmo tempo seria também justo que o animal do acting Michael Shannon fosse o vencedor. Veremos.
 
Óscar de melhor realizador
Quem vai ganhar – Damien Chazelle (La La Land)
Quem devia ganhar – Barry Jenkins (Moonlight)
Quem pode fazer uma surpresa – Mel Gibson (Hacksaw Ridge)
 
Todos os nomeados fizeram um belo trabalho na realização e o Óscar ficaria bem entregue a qualquer um deles, mas Damien Chazelle, pela criatividade da direcção de La La Land, e também lembrando Whiplash, deve vencer. No entanto, ninguém conseguiu fazer este ano um melhor trabalho na realização do que o realizador de Moonlight, sempre colocando o espectador na lente do seu protagonista de forma onírica, quase surreal. Hollywood adora regressos e Mel Gibson vencer, depois de já ter vencido em 1995 com Braveheart, pode ser uma realidade.
 
 
Os dois grandes filmes que a Academia não teve coragem de nomear para melhor filme
 
Silence 
 
Para muitos o épico religioso de Martin Scorsese é mesmo o melhor filme do ano e a sua ausência na lista de nomeados para melhor filme, quando existe a possibilidade de a lista incluir 10 nomes (os nomeados são apenas 9) só se consegue justificar com a cobardia ética de uma indústria que se quer afastar o mais possível da polémica temática religiosa. Este é o Apocalypse Now de Scorsese, a odisseia de um homem em busca de outro, e ao mesmo tempo em busca da palavra de Deus em si próprio. Cinematograficamente brilhante, assim como em todos os seus campos técnicos, Silence só não leva as 5 estrelas pela sua recta final de interpretação dúbia desnecessária. Torna-se ainda mais frustrante ver Andrew Garfield nomeado para melhor actor com um papel inferior ao que Scorsese consegue aqui dele extrair. E onde está Liam Neeson para actor secundário?
 
 
Nocturnal Animals 
 
Visualmente brilhante, com um argumento misterioso, intenso e visceral, quase intoxicante, e enormes interpretações, Nocturnal Animals pode ser um poço de vaidades mas faz por as justificar. É um dos filmes mais criativos do ano, que invoca Lynch, com a capacidade de corroer e questionar o espectador com um moralismo cínico que caricatura de forma brilhante uma certa burguesia pretensamente culta e acomodada. Amy Adams, a ser nomeada, teria que o ser primeiro por Nocturnal Animals e só depois por Arrival. Michael Shannon é também frio e sólido como uma rocha no papel de ranger texano que não tem nada a perder. O filme de Tom Ford merecia muito mais.
 
 
Os dois outsiders nomeados
 
Lion e Hidden Figures
 
 
O ano passado trouxe uma enorme polémica à grande cerimónia dos Óscares devido à total ausência de nomeados não brancos em quaisquer categorias. Este ano a situação muda, e não só no que diz respeito a actores e realizadores. Os próprios filmes e temáticas que a Academia decidiu distinguir com nomeações demonstram um pedido de desculpas em forma de acção, virando o olhar para a odisseia de um menino indiano perdido da sua família e para a devida homenagem às mulheres negras, matemáticas, que tiveram um papel fundamental na corrida norte-americana para o espaço na década de 60. Ambos são sem dúvida filmes interessantes, mas inseri-los no restrito lote dos melhores do ano será certamente um exagero, principalmente quando tantos outros superiores ficam de fora.
 
 
5 razões porque não é justo que La La Land seja o grande vencedor da noite
 
Apesar de ser sem dúvida um filme bom e interessante e justificar a maior parte das suas 14 nomeações, principalmente cinematografia e realização, não é justo que La La Land, o grande fenómeno entre os nomeados, seja o vencedor em muitas delas. Eis porquê:
 
#1 Para um musical, a música não é assim tão boa
 
Basicamente é isso. Apesar de ser um musical e estar recheado de temas musicais, nenhum deles é realmente inesquecível ou interessante o suficiente para nos fazer lembrar os grandes musicais de outros tempos. Os momentos musicais mais interessantes de La La Land passam-se no velho clube de jazz tradicional, e isso é dizer muito quando existiu um enorme trabalho na composição musical do filme. Pedia-se mais audácia!
 
#2 As coreografias são desinteressantes e simplórias
 
Num filme que se apresenta como um revivalismo do género musical, com várias referências directas a grandes clássicos, as coreografias são componente fundamental. Além da cena de sapateado, esforçada mas que vale mais pela cinematografia do que pela coreografia, e da megalómana abertura, La La Land tem pouco ou nada para apresentar. Desilude muito neste campo.
 
#3 Ryan Gosling está furos abaixo de Emma Stone neste registo
 
Ryan Gosling é um grande actor e certamente um galã, mas se tem a formação musical que dizem ter o seu desempenho neste registo deixa muito a desejar. Gosling tem manifesta dificuldade nas sequências cantadas, principalmente quando contraposto com Emma Stone que está muito mais confortável. Acrescenta-se ainda o seu esforço algo embaraçoso na sequência de sapateado. Treinar piano não foi o suficiente.
 
#4 A moral da história é básica
 
Elogia-se muito La La Land pelo seu final anti-cliché de que apesar do amor ser grande, por vezes as coisas não correm como queremos e é preciso fazer sacrifícios amargos. Tudo verdade, mas não será esta conclusão um pouco simples demais para algo que é apresentado numa sequência final tão complexa? Não será este anti-cliché ele próprio um cliché?
 
#5 Ter Hollywood a avaliar um filme revivalista sobre Hollywood é batota
 
É sabido que a Academia tem um fraquinho especial por filmes revivalistas sobre Hollywood/cinema e criar um bom filme dentro dessa temática é meio caminho andado para o sucesso. Vejam-se os casos do recente The Artist, Birdman ou do próprio Singin’ in the Rain. A ganhar, La La Land não se livra desse apontamento que lhe é exterior.
 
 
As grandes ausências e surpresas nas nomeações
 
Já falámos da grande lacuna que existe com a não nomeação de Silence e Nocturnal Animals para a categoria de melhor filme. E nas outras categorias? Quem falta? Quem foi nomeado e não devia ter sido? Quais foram as surpresas positivas?
 
 
A injusta nomeação de Dev Patel (Lion) para melhor actor secundário
 
É muito por causa da fraca interpretação de Dev Patel na transição do pequeno Saroo para idade adulta que Lion se torna um filme tão desequilibrado. Patel faz mais mal que bem ao filme. Nomeá-lo é só anedótico.
 
 
A boa surpresa que foi a nomeação de Michael Shannon (Nocturnal Animals) para melhor secundário
 
Michael Shannon é um dos melhores actores de Hollywood e já estava mais que na hora de voltar a ser nomeado. Em Nocturnal Animals, Shannon quase tem poder suficiente para criar um mini filme dentro do argumento, de presença sempre imponente e desconcertante. Este homem merece um Óscar.
 
 
A ausência de Liam Neeson (Silence) para melhor actor secundário
 
Além do filme em si ter sido o mais injustiçado nas nomeações para os Óscares, Liam Neeson tem uma curta mas intensa e complexíssima interpretação, a fazer mesmo lembrar a intensidade de Marlon Brando em Apocalypse Now. A mistura de sentimentos, o seu silenciar, faz desta uma das melhores interpretações da carreira do actor. Não só devia estar nomeado, como deveria mesmo até vencer.
 
 
A ausência de Amy Adams (Arrival e Nocturnal Animals) para melhor actriz
 
Num ano em que tem duas grandes interpretações, ambas em filmes contemplados com várias nomeações, é estranhíssimo que Amy Adams não esteja nomeada para melhor actriz. E injusto também.
 
 
A ausência de Scorsese e Tom Ford para melhor realizador
 
Apesar de se perceber a decisão pela qualidade e merecimento dos 5 nomeados, Scorsese e Tom Ford mereciam tanto ou mais.
 
A ausência de Silence para melhor argumento adaptado
 
Um dos melhores argumentos do ano foi esquecido. De propósito.
 
 
A justa nomeação de Sully para edição de som
 
Justifica-se falar desta nomeação pelo facto do som ter sido indubitavelmente uma das características mais poderosas de Sully. É de longe o melhor filme do ano neste departamento.
 
A ausência de Tom Hanks (Sully) para melhor actor
 
Seria muito merecida, mas aceita-se a falta de espaço dada a interpretação dos outros 5 nomeados.
 
A ausência de Kevin Costner (Hidden Figures) para melhor actor secundário
 
O ponto mais forte de Hidden Figures é a interpretação de Kevin Costner que move e segura o filme como uma bússola precisamente calibrada.
 
 
Nomeações para filmes como Suicide Squad, Deepwater Horizon, Allied ou Passengers
 
Ainda que seja em departamentos técnicos, parece imoral nomear filmes que não passam do razoável. Pelo menos Fifty Shades Darker não recebe nomeação, ao contrário do ano passado.

Bibliografia

Autor: David Bernardino

Advogado e crítico de cinema, amante de tudo o que diz respeito à sétima arte. Do cinema mudo ao blockbuster, da comédia ao terror, todo o cinema pode e merece ter o seu lugar. Actualmente escreve no blog de cinema pessoal The Fading Cam e, claro, no webV, já tendo passado pelo Retroprojecção ou pelo Arte-Factos.

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