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Manchester by the Sea (2016)

Muito se tem falado de Manchester by the Sea e da interpretação de Casey Affleck, que seria aqui entendida como magistral ou francamente apática e sobrevalorizada. Este é um filme de pólos, de entendimento dúbio, de propósito vago e anestesiado. Affleck interpreta um homem médio, que perdeu a vontade de viver e se arrasta no dia a dia nas suas pequenas tarefas de porteiro, como quem aceita a sua condição de apatia perante a vida sobre a qual tem dificuldade em reflectir. Deparando-se com a morte do seu chegado irmão, há que lidar com todo esse processo, burocrático e emocional. A ausência emocional de Casey Affleck ao longo do filme (que na realidade é o preciso oposto escondido), os raros picos emocionais, sempre contidos, são a descrição exacta do atordoamento da perda inesperada de alguém querido. Uma auto-reflexão, uma série de pontas soltas que ficam por atar, sentimentos latentes que ficam por dizer. Manchester by the Sea é também um filme feito de pares. Foca-se em Casey Affleck, é claro, mas a sua verdadeira beleza está na interacção com o outro, a ex-mulher Michelle Williams, o sobrinho habilmente interpretado por Lucas Hedges, o irmão Kyle Chandler, entre outros. Affleck é uma espécie de planeta que se vê atingido por um asteróide, afectando o equilíbrio dos satélites à sua volta, e é isso que vamos observando nos diálogos que dão alma às belas imagens filmadas por Kenneth Lonergan, sempre pautadas por uma certa aura de humor negro, um humor negro que é o próprio desta realidade.
 
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Tudo é muito bom neste drama que parece nem ter lugar no cinema americano. Há aqui não só algo de cinema europeu e japonês, no seu subgénero de cinema de família, dramaticamente falando, como também algo de teatral: personagens, diálogos e cenários, tudo com uma acautelada profundidade despretensiosa, tudo na dose adequada, com a sensibilidade da dramaturgia que é profissão do seu realizador. No entanto, o grande foco é, de facto, a interpretação de Casey Affleck, ou o seu “under acting” que parece adjectivar a sua interpretação, a nosso ver de forma pouco acertada. O actor sempre nos habituou a boas interpretações, mas foi preciso esperar quase 10 anos para ver algo que ultrapassasse o seu magnífico desempenho em O Assassinato de Jesse James pelo Cobarde Robert Ford. A personagem de Affleck, e consequentemente a sua interpretação, é um pau de dois bicos. Mostra pouco no écrã, mas é precisamente essa contenção, essa mistura de sensações que revolvem as suas entranhas emocionais, que fazem desta, até ver, a melhor interpretação do ano. Tudo depende da forma como se olha para ela. Por estar mais fresco, peguemos no exemplo de Liam Neeson em Silence, e o seu padre Ferreira reencontrando Andrew Garfield, que concentrou em si uma antítese de sentimentos contidos, um sofrimento reprimido e negado a si próprio, uma aceitação da sua própria condição. É isso que Casey Affleck faz em Manchester by the Sea, com alguns momentos de cinema verdadeiramente assombrosos, como aquele que está na imagem e em que por poucas palavras e apenas trejeitos consegue arrasar o espectador que vê ali concentrados tantos adjectivos de personalidade que só nos podemos questionar como é que um actor conseguiria expressá-los todos no écrã. É isto, crú e duro. Podia ser diferente, sim. Poderia ter mais pontos de interesse do que a mera estagnação emocional da sua personagem, mas porque tem que o fazer? Porque não poderá o sofrimento, aqui tão atroz, não ter saída? Porque teria Affleck de encontrar uma solução para a sua apatia, além do whisky? Manchester by the Sea poderia ser muito diferente, mas é assim, na sua estagnação, que atinge o seu maior brilhantismo.
 
Porque é bom: A interpretação de Casey Affleck, numa mistura visceral de sentimentos quase impossíveis de transportar para o écrã, o que faz com uma habilidade contida, quase prestes a explodir, assustadora e tristemente real; os duos interpretativos que Affleck faz com os secundários, sempre com excelentes diálogos; banda sonora de bela composição; realização teatral de belo efeito; o drama real e anestesiado do sofrimento e da depressão da súbita perda de alguém próximo.
 
Porque é mau: A interpretação do actor principal pode ser entendida como preguiçosa, apática e vazia devido à carência de picos emocionais ao longo da narrativa, e essa interpretação é tão legitima como a outra por aquilo que vemos no écrã.

Bibliografia

Autor: David Bernardino

Advogado e crítico de cinema, amante de tudo o que diz respeito à sétima arte. Do cinema mudo ao blockbuster, da comédia ao terror, todo o cinema pode e merece ter o seu lugar. Actualmente escreve no blog de cinema pessoal The Fading Cam e, claro, no webV, já tendo passado pelo Retroprojecção ou pelo Arte-Factos.

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