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La La Land (2016)

La La Land não é o melhor filme do ano, e tão pouco é um grande filme, ainda que se perceba o porquê do enaltecimento das suas melhores características. Existe sempre um certo fascínio e entusiasmo pelo regresso triunfante no cinema de algo antigo que com o tempo se perdeu, seja um realizador (Mel Gibson ou Shyamalan), um actor (Mickey Rourke, Jennifer Jason Leigh) ou mesmo um género cinematográfico, como aqui acontece com o musical, essa coisa estranha e surreal que já lá vai e de que ninguém assume gostar, mas que quando existe uma tentativa de revivalismo as salas esgotam, compreensivelmente. É a vã esperança de que algo que já foi grande o possa ser novamente, agora para nós que aqui estamos em 2017. Por vezes resulta, outras vezes fracassa, como fracassou o miserável Mamma Mia!. Em 2011 aconteceu algo semelhante com The Artist, merecidíssimo vencedor do Óscar de melhor filme, que conseguiu de forma despretensiosa, audaz e corajosa fazer homenagem ao cinema mudo com um filme mudo (e para além desse “detalhe” técnico, que grande filme foi) que soube dar o passo extra que necessitava para se tornar uma obra-prima. Finalmente, em 2016, La La Land é o musical que poderia ocupar esse lugar de revivalismo e homenagem ao cinema enquanto indústria. Tal como em The Artist, o cenário é o berço do cinema americano, Los Angeles, cidade do bairro de Hollywood, ideal para o que se pretende. O realizador, Damien Chazelle, que dirigiu o portento que foi Whiplash, já deu provas do seu enorme talento, e mais uma vez não o desperdiça (totalmente), ainda que La La Land pareça um instrumento desafinado. A música continua a ser o grande pano de fundo, Gosling é um pianista, Emma Stone uma actriz, partilham igualmente a tela, mas a música, essa acaba sempre por se sobrepor a tudo, desde os cenários, a alguma história do jazz tradicional (parece ser o tema fetiche de Chazelle, e nós aplaudimos) acabando no simples facto de se tratar de um musical. Mas dizer apenas, com esta leveza, que La La Land é um musical é ser demasiado redutor.
 
 
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Além de musical, que aqui nunca é auto-consciente nem se assume a si mesmo, ou seja, as personagens cantam mas não reconhecem que o estão a fazer, não sendo a cantoria condição da trama, apenas um ornamento exterior, La La Land é também um agradável e sonhador romance, qualquer coisa de cândido e inocente que dá prazer ver. Muito se tem falado da inteligência de Gosling em gerir a sua carreira, escolhendo sempre bons papéis e bons filmes, mas em La La Land, além da sua pinta, temos alguma dificuldade em não assumir como algum pedantismo a sua presença. Emma Stone segue pelo mesmo caminho (os dois já se haviam cruzado na boa comédia romântica Crazy, Stupid, Love). Os dois são muito bons actores, mas a realidade é que em La La Land nunca nenhum deles consegue verdadeiramente brilhar em termos interpretativos (aqui Stone está até talvez um degrau acima). Em termos deste ser um musical vistoso, aí brilham os dois ao ponto de ofuscar, só que não é suficiente. Essa é, de resto, toda a condição do novo filme de Damien Chazelle. É tudo bastante bom, mas nada é excepcional ou sequer muito bom, com excepção talvez da cinematografia, com uma palete de cores impressionante (o céu de La La Land é de facto maravilhoso). Os planos sequência são bons, a realização em si é refrescante e incisiva, como já o era em Whiplash, mas na ausência de tensão dramática parece que tudo se perde numa mera decoração visual. Afirmar que é filmado em Cinemascope, no ínicio da projecção, por si só é também insuficiente. A determinado momento a meio do filme parece que La La Land se esquece que é musical, perde o interesse ou a coragem de o ser, abandonando a cantoria a favor de uma apresentação convencional onde os seus dois actores claramente se sentem muito mais à vontade, apenas para recuperar a canção mais uma vez e voltar a abandoná-la na bem cuidada sequência final. Talvez Chazelle prefira apenas o instrumental. A própria seleção musical não é sequer audaz ou tecnicamente desafiante como foi em Whiplash (o que está John Legend aqui a fazer?!). Regressando ao ínicio do texto, e agora para o fechar, pouco mais há em La La Land que competência e fascínio por algo que já não existe. É uma homenagem, uma boa homenagem, mas não é uma obra-prima em nenhum dos muitos campos em que se aventura (nem mesmo nas puras sequências musicais, sendo a única! excepção a cena de sapateado que faz o cartaz) e não merece o Óscar de melhor filme do ano. La La Land nunca arrisca, nunca dá o passo extra, nunca sai do campo do conforto para quebrar barreiras e atingir patamares superiores. Está longe disso…
 
 
Porque é bom: Excelente cinematografia; a realização é fresca e incisiva; a banda sonora, as coreografias e as musicas interpretadas são alegres e agradáveis.
 
Porque é mau: Além da própria condição vistosa de ser um musical, os actores nunca conseguem brilhar em termos interpretativos; falta audácia à seleção musical; o filme tem dificuldades em assumir-se como musical, antes preferindo ser visto como uma homenagem a esse género; não arrisca em nenhum dos muitos campos que pretende abordar, preferindo a segurança e a competência a aquele pequenino esforço extra que poderia fazer dele uma obra-prima.

Bibliografia

Autor: David Bernardino

Advogado e crítico de cinema, amante de tudo o que diz respeito à sétima arte. Do cinema mudo ao blockbuster, da comédia ao terror, todo o cinema pode e merece ter o seu lugar. Actualmente escreve no blog de cinema pessoal The Fading Cam e, claro, no webV, já tendo passado pelo Retroprojecção ou pelo Arte-Factos.

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