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Get Out (2017)

Get Out é o filme sensação da primeira metade de 2017 e percebe-se bem porquê. Numa altura em que mais do que nunca a questão racial nos Estados Unidos está a ser debatida, não só politicamente, mas também muito aqui, no cinema (desengane-se quem acha que antes de Django Unchained e 12 Years a Slave a escravatura americana era tema em Hollywood), quer no drama, quer no documentário (está também aí Im Not Your Negro, documento muito relevante sobre as lutas pela igualdade racial nos anos 60), chegou a vez dessa temática ser transposta para o tal “cinema de género”, expressão requintada que pelos vistos assenta melhor no terror (o género tem nome caraças!). Jordan Peele, humorista americano, negro, é o realizador e esta é a sua estreia. Felizmente a coisa correu bem, porque, se pusermos de lado por um momento a delicadeza do horror racial com que joga, o filme funciona lindamente nas boas regras do terror misterioso slow burn, com um belo desenvolvimento de personagem, lançamento de dados intrigantes para um jogo de gato e rato de boas aparências em que algo de horrível se pode esconder atrás da porta da meta.
 
No entanto, aquilo que efectivamente afasta Get Out dos seus pares de “género” é a forma como joga com o preconceito racial, não só das personagens do filme, mas também com o do espectador, numa linguagem tragicómica de puxar os cabelos, de forma a provocar pensamentos e posições morais dentro do próprio filme. “Força Chris, és mais esperto que eles!” é o que passará certamente na cabeça de muitos, deliciados com o belo entretenimento que Get Out oferece. Ainda assim há que, como em tudo, ter peso e medida precisamente na avaliação que é feita ao peso social do filme. Get Out não está propriamente a destruir barreiras e fazer dele um filme de intervenção racial quase messiânico, porque beneficia de uma linguagem cinematográfica acessível à grande maioria do público, será talvez exagerado. Dá vontade de questionar onde estavam Jordan Peele e certamente outros que agora se lhe seguirão há uns anos, na administração Obama, ou mesmo antes disso. Agora que se atirou a primeira pedra (e não foi certamente Get Out quem a lançou), e com todo o aval popular que esta mensagem transmite e quer se queira quer não beneficia, e muito, com a eleição de Trump que lhe dá toda uma outra importância (note-se que aquando da rodagem ainda não se sabia quem seria o novo presidente dos EUA, ou pelo menos Get Out nunca o refere, apesar de se referir algumas vezes a Obama como o melhor presidente da história dos Estados Unidos, como que recolhendo alguns dos seus créditos).
 
Get Out não é um filme objectivamente inocente, ainda que isso não lhe possa retirar mérito. E já que se fala de objectividade, e regressando ao “cinema de género”, nota-se a fraqueza das suas regras pré-estabelecidas nos últimos 10/15 minutos do filme, em que o clímax desse terror lento e construtivo quase deita tudo a perder, e não consegue sair do genérico. Antes disso perde-se na necessidade da “explicação” (essa maldita desmancha prazeres!), numa queda numa realidade horrível demais para ser verdade mas que nunca tem coragem suficiente para ser verdadeiramente decisiva para a visão do espectador sobre a questão (também não se pode pedir a Get Out que seja um Martyrs ou qualquer outro filme extremista). A culpa não é dele. Get Out é sem duvida objecto interessantíssimo e original que deve ser visto, confrontando o próprio espectador com o preconceito das regras raciais, mas isso também é algo muito fácil de se dizer e, em jeito provocatório, talvez de fazer.
 
Porque é bom: Enquanto filme de terror/mistério com toques de humor negro é eficaz, rigoroso e de belo entretenimento; enquanto filme de intervenção racial é também eficaz, rigoroso e de belo entretenimento, com um argumento muito original que será o seu ponto mais forte; Daniel Kaluuya é um actor muito competente de futuro auspicioso; abre caminho ao debate racial no cinema de género
 
Porque é mau: Cai, como não podia deixar de ser, em algumas armadilhas do género terror, como a explicação que destrói o mistério e um clímax musculado, mas felizmente moderado; beneficia das condições sociais em que foi rodado e que se vivem aquando do seu lançamento, projectando-o para um spotlight que talvez seja grande demais.

Bibliografia

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Autor: David Bernardino

Advogado e crítico de cinema, amante de tudo o que diz respeito à sétima arte. Do cinema mudo ao blockbuster, da comédia ao terror, todo o cinema pode e merece ter o seu lugar. Actualmente escreve no blog de cinema pessoal The Fading Cam e, claro, no webV, já tendo passado pelo Retroprojecção ou pelo Arte-Factos.

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