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Especial 10ª Edição Motelx – Críticas

Dia #1 – Sessão de Abertura

 Don’t Breathe (2016) – 4 estrelas

Filme de abertura do Motelx 2016, Don’t Breathe não só é um soberbo thriller como é um dos melhores. Chegámos a uma altura em que no âmbito do cinema de terror e thriller de uma forma geral é muito difícil encontrar um conceito original que se traduza numa verdadeira sensação de expectativa pela novidade. Felizmente em 2016 já tivemos um, 10 Cloverfield Lane. Em Don’t Breathe, a simples ideia (desde que bem executada, claro) de colocar três jovens a assaltar a casa de um cego que afinal não é assim tão indefeso como parece é suficiente para, pelo menos, aguçar a curiosidade. Só que nesta produção do lendário Sam Raimi, realizador de Evil Dead de 1981 e um dos pais do horror série B, aqui realizada por Fede Alvarez, que também realizou em 2013 o remake de Evil Dead, Don’t Breathe não se limita a explorar esta premissa, que, convenhamos, seria facilmente esgotável, mas antes a renová-la ao longo da hora e meia de filme. Não existe aqui qualquer enchimento de chouriços ou mesmo backgrounds de personagem desnecessários. Tudo em Don’t Breathe é introduzido com um propósito, com peso e medida, como um jogo de tabuleiro cuja meta se vai tornando cada vez mais difícil de alcançar com o avançar das casas, que aqui é só uma. Não nos alongaremos muito sobre as voltas e reviravoltas de Don’t Breathe (se nem o trailer o quer fazer, longe de nós estragar as surpresas), mas são de encher a barriga convincentemente, jogando com as responsabilidades morais do próprio espectador. Aliado a tudo isto está a realização de Alvarez, que demonstra ao mesmo tempo uma faceta observadora e outra ofensiva e exasperante, com um sexto sentido que se poderia chamar “tensão”, que se junta aos pilares olfacto, visão e audição e que são as regras desta casa escura. Não é perfeito, a recta final é algo soluçante e existem momentos em que a tensão solidamente construída esbarra com o terror série B menos comprometedor que corre nas veias de Fede Alvarez, mas isso são apenas minúsculas nódoas num quadro quase imaculado e que até podem, e talvez até funcionem, como vantagens.

 

Dia #2: The Wailing, Demon, The Neighbor, The Inerasable

O segundo dia do Motelx 2016 foi forte. Começou calmo e atmosférico com o japonês The Inerasable e atingiu um clímax que superou todas as expectativas com o sul coreano The Wailing. Foi isto que achámos do que vimos:

 
 

The Inerasable (2016) – 2 estrelas

O Japão continua a ser profícuo no que toca ao cinema de terror. De ano para ano as ofertas são muitas (não no circuito de cinema em Portugal, há que as procurar), mas infelizmente a qualidade que filmes como o The Ring original de Hideo Nakata trouxeram há uns anos tem sido cada vez mais escassa. The Inerasable coloca-se no meio da tabela. Debruçando-se sobre uma espécie de investigação sobre o histórico de registo predial de um terreno aparentemente amaldiçoado, Inerasable é bem realizado e atmosférico o suficiente ao ponto de se tornar arrepiantemente viciante à medida que as duas protagonistas escavam cada vez mais fundo a história daquele terreno e o que lá se passou ao longo de gerações. No entanto é algo soluçante e inconsequente, como que acabado à pressa, como se na verdade, depois de tantas histórias e intrigas o realizador simplesmente não soubesse qual a forma mais eficaz de encerrar o livro.

 
 
 

Demon (2016) – 3 estrelas

Produção polaca que tem recebido muitos elogios da crítica, este Demon é original, provocador, perturbador e… carregado de humor negro. Passado num casamento católico, o noivo começa a demonstrar comportamentos estranhos que alguns convidados associam a uma velha lenda local acerca de um demónio judeu. O argumento e ritmo do filme são deliciosos, a fazer lembrar um certo tipo de comédia europeia, aqui muito mais ruim e estranha devido aos próprios contornos de horror do filme, com personagens soberbamente escritas e interpretadas. Pena que o mistério meticulosamente progressivo não seja mais explorado, tornando-se apenas sugestivo e surreal, como uma gigante ponta que fica solta, que muitas vezes sabe bem, mas que aqui sabe a pouco, deixando um certo vazio incómodo para um espectador que foi tão bem preparado para algo mais ao longo de 90 minutos.

 

 

The Neighbor (2016) – 2 estrelas

Este é um daqueles filmes americanos low-budget que piscam o olho ao cinema série B, com todas as suas ideias mais que filmadas e mastigadas em inúmeros filmes, mas que aqui conseguem ter um certo charme apelativo que se traduzem num bom momento de entretenimento. Aqui estamos perante um casal de campónios século XXI algures no meio do Mississipi, que se dedicam a actividades ilegais, de poucos escrúpulos, e que de repente se vêm confrontados por um estranho vizinho que aparenta esconder algo. O que vem a seguir é uma história já muito vista, mas aqui o charme vem do casal protagonista, heróis improváveis, que de forma bem satisfatória carregam as boas decisões que são raras em thrillers do género. Com um visual vincado no Sul dos Estados Unidos, carros e guitarras bem introduzidas, The Neighbor é um filme inequivocamente agradável.

 

 

The Wailing (2016) – 5 estrelas

Prato principal do segundo dia do Motelx 2016, havia muita expectativa para este The Wailing que não só foi correspondida como ultrapassada. E não devemos falar dele de forma leve. Estamos perante um dos melhores thrillers sobrenaturais de todos os tempos e há que dizê-lo sem pudores! O realizador sul-coreano Hong-jin Na já havia dados provas fortíssimas na sua habilidade com o seu primeiro filme, The Chaser, um thriller policial que, libertando-nos das regras desse género de cinema americano, conseguia olhar olhos nos olhos portentos como Se7en de David Fincher. Com The Wailing o realizador mantém a fórmula base, mas adiciona-lhe o ingrediente do mistério sobrenatural que faz toda a diferença. Seguimos a personagem principal habilmente interpretada por Do Won Kwak, um polícia de uma pequena vila sul coreana, trapalhão, cobarde, mas com um coração grande, que se vê deparado com uma série de mortes inexplicáveis e violentas na sua vila que começam a ocorrer após um solitário japonês (outra enorme interpretação, de Jun Kunimura) se ter mudado para as redondezas. O filme, de cerca de duas horas e meia, progride a um ritmo progressivo exacto, qual relógio suíço, num misto de influências que vão da comédia dos detalhes do dia a dia, do trabalho e da relação com o polícia parceiro, ao adensar de um mistério surreal, mas ao mesmo tempo real, explorando os medos e crenças de cada um, e aqui desta pequena comunidade sul-coreana. Há algo de estranhamente realista em The Wailing. O comportamento das suas personagens, a actuação da polícia, as suas famílias, as suas fragilidades e medos, a chuva, os automóveis, as refeições… Parece que Hong-jin Na tem essa preocupação, de trazer o espectador comum a um filme que talvez, quem sabe, até pudesse ser real. Já havia essa sensação em The Chaser, mas aqui o prazer é diferente. Temos um mistério para resolver! E tudo isto podia ser aborrecido num filme tão longo, mas não é. Nunca. The Wailing vai-se renovando, inicialmente comédia leve caminhando-se para um horror sufocante, com inúmeros elementos de folclore local que dão ainda mais conteúdo e interesse à trama. Tudo isto se alia a uma cinematografia riquíssima, numa boa variedade de cenários, com planos meticulosamente construídos, objecto por objecto, num detalhamento visualmente delicioso que quase o conseguimos cheirar. Não há nada de negativo a apontar nesta experiência atordoante que sabe exactamente aquilo que está a fazer. Foi para filmes como The Wailing que nasceu o cinema de entretenimento.

 

 Dia #3 – 31 (2016), Pet (2016), The Noonday Witch (2016)

O terceiro dia do Motelx 2016 não ofereceu, na medida daquilo que vimos, uma programação particularmente forte. Ainda assim foi em crescendo, e apesar de não termos visto Villmark Asylum, entre outras ofertas, o dia terminou agradavelmente com The Noonday Witch. As críticas:

 
 

31 (2016) – 0 estrelas

Ainda tínhamos a boca (ou o olho) doce de ter visto o fabuloso The Wailing na noite anterior quando fomos ver 31, o novo filme de Rob Zombie, tão mau que é difícil de qualificar, e chamar-lhe de dejecto cinematográfico execrável talvez não seja um eufemismo. Convenhamos, além de um nome cool, Rob Zombie nunca teve muito para dar ao cinema, realizando filmes pouco acima de medíocres desde House of 1000 Corpses de 2003. Este 31 não é nenhum filme mainstream, mas também não é sequer série B. É um filme série Z, cujo espírito Tarantino e Robert Rodriguez homenagearam com o interessantíssimo projecto Grindhouse, de onde se extraiu Death Proof e Planet Terror, em 2007. Curiosamente Rob Zombie foi um dos realizadores responsáveis por um dos falsos segmentos de trailers que apareciam entre os dois filmes de Grindhouse, pelo que se entende o fascínio do realizador pela série Z. O problema é que por muito giro que isso seja, um filme série Z pauta-se por ser mau na maioria das suas vertentes e é, por isso mesmo, um género que ficou esquecido, perdido nos anos 70. 31 é isso mesmo, mau em tudo, a começar pelo seu argumento mal escrito que faz questão de não aproveitar nenhuma das boas ideias que dele podiam ter decorrido. Aqui temos um grupo de 5 pessoas na casa dos 40/50 anos, raptadas para jogar um jogo de sádicos vestidos de palhaço cujo objectivo é matar os seus participantes. Nunca irá além disso. Todas as interpretações são fracas, francamente medíocres, as personagens vazias e desinteressantes, e nem sequer os sucessivos adversários que vão surgindo dão alguma faísca de interesse a 31. O filme é altamente provocatório e desagradável, sim, mas isso nem sequer é executado de forma minimamente inteligente, “divertida”, ou interessante para o espectador. 31 torna-se simplesmente gratuito na sua violência, no seu humor misógino altamente ofensivo, no seu total mau gosto. O conceito de filme série Z é engraçado sim, produzindo aquele tipo de filmes que são tão maus que se torna divertidos e bons. 31 até disso está muito longe…

 

 

Pet (2016) – 2 estrelas

Altamente influenciado por Gone Girl, Pet é um filme que parte de uma boa ideia mas que não consegue ir além da superficialidade. Ao encontrar por acaso a sua paixão do tempo da escola, um jovem adulto decide fazer dela prisioneira para a “salvar”. Usando do enredo a sua principal arma, assim como as boas interpretações de Dominic Monhagan e Ksenia Solo, Pet vai-se desenrolando num thriller claustrofóbico com alguns twists interessante e algumas noções psicológicas dignas de nota e que giram à volta do amor obsessivo,mas sem nunca aprofundar muito nenhuma das suas principais características. Tecnicamente limita-se a cumprir, como se alguém tivesse tido medo de tirar daqui um grande filme. 

 
 

The Noonday Witch (2016) – 3 estrelas

O melhor dos filmes que vimos no terceiro dia de Motelx foi o último, Polednice (The Noonday Witch), produção checa que é o primeiro filme do jovem realizador Jiri Sádek. Cinematograficamente este é um filme superior, filmado de forma bela, com uma palete de cores de Verão que trazem ao espectador o calor que mãe e filha sofrem quando decidem mudar-se para a vila onde o seu marido e pai cresceu. As muito boas interpretações ajudam a criar uma atmosfera fechada dentro de uma natureza aparentemente aberta, como que uma sombra pairando no dia a dia das suas personagens, amaldiçoando-o e enervando-o. Quando entra o horror, baseado numa velha lenda local, a sensação de desconforto é eficaz, mas infelizmente, e sem ter nenhuma necessidade de o fazer, usa demasiado o som para atingir o espectador. Golpe baixo, pois claro. Ainda assim, e apesar de deixar os espectadores com um apetite por horror mais aguçado um pouco desapontados com o desenlace, a atmosfera e toda a imagética fazem destes um dos filmes mais interessantes a passar por esta edição do Motelx.

 

 Dia #4 – Cannibal Holocaust (1980), February (2015),  Sam Was Here (2016)

Continuamos no Motelx 2016 para o seu quarto dia de festival, onde vimos o icónico Cannibal Holocaust, de 1980, apresentado pelo próprio realizador Ruggero Deodato, February de Osgood Perkins e Sam Was Here, o low-budget horror de Christophe Deroo. Foi um dia interessante pela possibilidade de ver o filme proibido de Deodato, mas infelizmente o resto não satisfez.

 

Cannibal Holocaust (1980) – 4 estrelas

Este é o infame filme de Deodato, considerado por muitos como o filme mais perturbador e violento de todos os tempos, que foi banido em diversos países tendo inclusivamente originado a detenção do realizador que teve que provar em tribunal que os actores do filme estavam vivos. não se tendo livrado de uma pena suspensa de 4 meses por obscenidade. É um exploitation horror que usa o conceito de found footage para desvendar o que aconteceu a uma equipa de produção que foi para a Amazónia realizar um documentário sobre as tribos canibais, altamente violentas, da região. E é de facto chocante, ainda hoje em dia, muito pela utilização de imagens hiper-realistas que dão um cunho perturbador provavelmente nunca antes visto em cinema. Deodato não se fica pela tortura, mutilação, violação e exposição de órgãos do ser humano, entre canibais e ocidentais exploradores, como que observando o comportamento natural destas tribos altamente violentas. Além disto, Deodato filma a morte sem escrúpulos de alguns animais levada a cabo pelas personagens, e é engraçado ver como a audiência reage em 2016 à violência de Cannibal Holocaust, em que aparentemente a morte dos animais (real e sem artifícios) choca mais que uma mulher empalada como vemos na imagem. Além de todo o conteúdo extremo deste exploitation, é na realidade a camera de Deodato a grandes estrela que transporta todo o realismo das tribos filmadas na floresta virgem da Amazónia, de uma observação fria e letal, manietada, sem poder reagir. É realmente notável o marco que Deodato conseguiu atingir com Cannibal Holocaust, horrivelmente obsceno e ofensivo para muitos, sim, mas a verdade é que puxa os limites da imagem em cinema a um máximo. Haverão outros como ele com certeza, mas o horror inerente ao seu próprio conceito e localização é incontornável.

 

February (2016) – 1 estrela

Não é fácil analisar February porque efectivamente não estamos perante um filme ignorante, que use lugares comuns para criar um filme de terror slow burn, de ritmo lento e atmosférico. Acompanhamos duas alunas de um colégio interno cujos pais ainda não as foram buscar para passar as férias de Inverno, vendo-se forçadas a aguardar na escola por uns dias, apenas acompanhadas por duas funcionárias. A intenção é clara: criar uma atmosfera de tensão e desconforto em crescendo para um desenlace que se pretenderia satisfatório, mas isso está longe de acontecer. Existem aqui bons momentos de cinema, particularmente em alguma da cinematografia, mas tudo o resto é demasiado pobre. O desenvolvimento de personagens, que aqui é parte absolutamente decisiva para o desenlace, é praticamente inexistente, e o ritmo lento a que a trama se desenvolve, em paralelo observando uma terceira rapariga que está a caminho do colégio, não possui qualquer substância que acompanhe o seu estilo imagético, que até é bastante bom. Adoramos terror slow burn, é talvez o favorito (The House of the Devil, por exemplo, é uma obra prima), mas em February nem o crescendo nem o clímax têm algo mais a oferecer que a sua imagem, provocando desinteresse num vazio argumentativo, que não passa de uma linha expositiva de acontecimentos com pouco ou nenhum significado e impacto para o espectador.

 

Sam Was Here (2016) – 1 estrela

Foi no Motelx a estreia internacional de Sam Was Here, primeira longa-metragem do francês Christophe Deroo, que infelizmente é demasiado low-budget para o seu próprio bem. A ideia é boa: um vendedor que se vê isolado nas paisagens do deserto do Mojave, na Califórnia, onde aparentemente tudo está abandonado e as pessoas desapareceram. A única coisa que existe e funciona é um programa de uma rádio local que vai informando acerca de um assassino que estará à solta nas redondezas. Dito assim parece que estamos perante um filme interessantíssimo, mas infelizmente a execução, que em cinema se sobreporá sempre à ideia, é demasiado deficiente, o que é pena porque Deroo está cheio de boas intenções com este Sam Was Here, que até tem uma boa cinematografia, mas será só. A interpretação principal deixa muito a desejar, assim como os diálogos, nunca conseguindo saltar aquela barreira que separa o filme amador do profissional, o que em alguns momentos é constrangedor. Se Deroo tivesse tido melhores ferramentas para trabalhar, e um budget substancialmente maior, Sam Was Here seria certamente totalmente diferente.

 

Dia #5: Under The Shadow (2016), O Segredo Das Pedras Vivas (2016), Critters 2 (1988), House on the Edge of the Park (1980)

Ao quinto dia, e 11 filmes depois, seria difícil arranjar motivação suficiente para apreciar mais algumas propostas da programação do Motelx 2016. Não fomos de modas e vimos 4 filmes de seguida. Foi um dia diferente, com homenagens e reposições, a António de Macedo no seu reeditado Segredo das Pedras Vivas, filmado em 1992, Mick Garris e novamente Ruggero Deodato, mas curiosamente foi o filme iraniano Under the Shadow, de 2016, que acabou por se revelar o grande filme do dia.

 

Under the Shadow (2016) – 4 estrelas

Que grande filme de terror, este Under the Shadow, demonstrando que não é preciso mostrar muito para se criar uma atmosfera envolvente e aterradora num ambiente original com personagens vivas, bem escritas e interpretadas. Esta produção iraniana, que tem lugar nos anos 80 em Teerão, após a revolução e em clima de guerra e bombardeamentos, é directamente comparável ao grande êxito, ainda que imperfeito, Babadook. Acompanhamos uma mãe, forte e moderna, no seu apartamento de classe média na capital iraniana, acompanhada pela sua filha que garante existirem demónios que raptaram a sua boneca. Em termos de ideia não é original (em 2016 o que é que faltará fazer?), mas Under the Shadow consegue escapar a alguns lugares comuns do género para criar uma experiência verdadeiramente envolvente e atmosférica, cujos demónios vão além dos sobrenaturais e passam para a própria história do Irão, o medo da guerra, as sirenes e a cultura de um país, aqui vista por dentro, onde andar na rua com o cabelo destapado é crime. Tecnicamente irrepreensível, com uma câmara rodopiante e urgente, mistura algumas convenções do terror dos anos 80 com uma apresentação mais moderna, apresentando uma identidade única, altamente eficaz para os fãs do cinema de terror. É, a par de The Witch e The Conjuring 2, o melhor filme de terror do ano.

 
 

O Segredo das Pedras Vivas (2016) – 2 estrelas

Filme português de António de Macedo, este é o produto da reedição da mini-série filmada em 1992 Altar dos Holocaustos. Uma das mais interessantes características do cinema europeu fantástico, assim como o pouco que se fez em Portugal, prende-se com a capacidade de introduzir o seu próprio folclore e mitos locais na temática do filme, explorando-as como que respirando a sua própria cultura através da imagem. O Segredo das Pedras Vivas não é excepção, falando-nos dos pré-históricos monumentos, menires, dólmens ou cromeleques, que se encontravam e encontram espalhados um pouco por toda a Europa, incluindo no nosso país. Algumas populações locais, e em particular esta que é retratada no filme, rodado no Alentejo, acreditam que estas pedras têm poderes mágicos e aqui, no enredo, existe um proprietário que as quer destruir para construir uma casa, o que lança o mote para uma história que se quer intrigante, mas que infelizmente acaba por ser ineficaz. O filme, a ritmo lento e tortuoso, começa misterioso mas rapidamente se arrasta para a logística do problema, pintando-se com um ou outro momento mais fantasista perdido numa escalada rumo a um desenlace moralista desinteressante que em nada se associa à identidade do local que estamos durante duas horas a contemplar. Notam-se bem algumas limitações temáticas, talvez por ser originalmente produto encomendado pela RTP, mas apesar de ter momentos interessantes, a atmosfera e contemplação de O Segredo das Pedras Vivas nunca vai além do razoável.

 
 

Critters 2 (1988) – 2 estrelas

Mick Garris foi um dos convidados especiais do Motelx 2016, e por isso faz todo o sentido recordar a sua primeira longa metragem, Critters 2. Este é um daqueles filmes de terror/comédia que normalmente associamos aos anos 80 e que surge na senda do êxito de Gremlins. Aqui, e esta é uma sequela, a ideia é parecida, como foram outras: uns bichos trapalhões, engraçados mas mortíferos que aterrorizam uma pequena comunidade americana. Liberto de CGI, deliciamo-nos com os efeitos especiais práticos de Critters 2, praticamente extintos hoje em dia, com muitos bonecos e gosma para encher a barriga num bom momento de entretenimento. Isso não faz dele, como não fez em 1988, um bom filme. É uma parvoíce de filme, mas uma parvoíce bem divertida, e afinal de contas é esse o objectivo.

 
 

House on the Edge of the Park (1980) – 2 estrelas

Este foi o segundo filme de Deodato exibido no festival, curiosamente filmado no mesmo ano que Cannibal Holocaust, 1980, imediatamente no período de pós-produção deste último. Foi também o filme mais desagradável que vimos nesta edição do Motelx. House on the Edge of the Park é um exploitation horror puro, influenciado pelo primeiro filme de Wes Craven, The Last House on the Left. Neste filme observamos dois tipos duvidosos que se fazem convidados para uma festa de jovens ricos, tomando a casa de assalto e torturando/violando os convidados, e é apenas isso que observamos ao longo dos 90 minutos de filme. A camera de Deodato é de facto incisiva e exploratória, expondo o corpo feminino, humilhando-o às mãos do alucinado David Hess, que também havia sido o protagonista do filme de Wes Craven. Apesar de profundamente desagradável (é difícil dizer se as interpretações são ridiculamente más ou realisticamente boas), há algo de perversamente erótico na forma como Deodato filma. No reverso da moeda é irrealista e tem cenas que no limite não conseguem ser levadas a sério, roçando o rídiculo, mas um ridículo desconfortável, estranho e desconhecido. No final não sabemos bem o que vimos, odiamos o filme, mas há algum mérito na forma como atormenta e entra na cabeça do espectador, ele próprio vulnerável à perversão do realizador.

 

 Dia #6: Personal Shopper (2016), Scream Week (2016), The Devil’s Candy (2015)

Muitos filmes depois, chegou o último dia do Motelx 2016. Foram 6 grandes dias de entretenimento cinematográfico, e não só, que chegam ao fim com uma franca sensação de esgotamento que justifica também o facto desta última fornada de críticas ser apenas publicada 5 dias depois do fim do festival. Vimos no total 18 filmes, mas não nos arrependemos. O último dia foi também interessante e teve como prato mais requintado Personal Shopper, o novo filme de Olivier Assayas, com Kristen Stewart. Vimos também o teen-slasher holandês Scream Week e a sessão de encerramento que apresentou o original The Devil’s Candy. Foi isto que achámos:

 
 

Personal Shopper (2016) – 3 estrelas

Aparentemente o bem sucedido anterior filme de Olivier Assayas, Clouds of Sils Maria, igualmente protagonizado por Kristen Stewart (num papel que até é bastante semelhante ao aqui presente), criou uma ligação entre realizador e actriz que se transportou, e muito bem, para Personal Shopper. Kristen Stewart é a assistente de uma socialite de Paris, responsável por comprar a sua roupa e acessórios, para que nada lhe falte. Este é o “cenário” da trama, que serve apenas de veículo uma vez que o âmago do filme nada terá que ver com isso. A sua personagem está a tentar contactar o irmão, falecido há muito pouco tempo, numa espécie de demanda surreal em busca de uma paz interior que poderá não existir. Assayas é hábil no desenvolvimento da sua personagem principal, num filme tecnicamente evoluído que claramente se distância do registo mais descomprometido que normalmente associamos ao Motelx. O realizador convida o espectador a exercer um certo voyeurismo sobre a trama, invadindo a privacidade da personagem que, de forma crédula, se entrega a qualquer manifestação que tenha dificuldade em justificar. E isso é, além de original e interessantíssimo, é executado na perfeição, com a introdução de elementos de horror criativos e misteriosos. É difícil dizer que Personal Shopper é um grande filme. Afinal de contas não passa de uma pequena reflexão, ao de leve, sobre a dor de perder alguém que se ama, mas guarda sem dúvida um belo espaço na retina de quem o vê. Foi um dos melhores filmes a passar nesta edição do Motelx.

 
 
 

Scream Week (2016) – 1 estrela

Sala inesperadamente vazia no Motelx para ver este teen slasher holandês, que podia não o ser, já que segue copy paste as regras ditadas por Wes Craven e amigos para este género de terror, com todos os lugares comuns expectáveis, onde um assassino com máscara aterroriza um grupo de jovens na sua semana de férias e festa. Ser holândes é apenas um detalhe. Não há nada de errado em Scream Week ser um teen slasher e usar os lugares comuns do género. O problema vem das gorduras, dos excessos que estão a mais no filme, e que ainda por cima se repetem ciclicamente. Falo nos sucessivos cortes no andamento thrillesco do filme, sempre que existe uma pequena pausa na trama, com sequências montagem de festa e bebida dos jovens que estão naquele local para as suas férias, com música ensurdecedora que mais parece ilustrar um bando de gorilas a descer uma montanha aos trambolhões, como se o espectador, burrinho como os protagonistas, precisasse de estar constantemente a ser recordado do cenário onde se insere o filme. Essa presença nefasta é tanta que por vezes parece que estamos a ver dois filmes em paralelo, o que retira toda o prazer que se possa extrair deste Scream Week.

 
 
 

The Devil’s Candy (2015) – 3 estrelas

Foi o filme escolhido para o encerramento do Motelx 2016, escolha que deixou algo a desejar face ao que já se viu no encerramento em anos anteriores. Devil’s Candy pega na premissa batida de colocar uma família (pai, mãe e filha) numa nova casa, casa essa, claro está, que esconde alguns segredos que irão atormentar os protagonistas. Felizmente, The Devil’s Candy não é só isso, e é inteligente o suficiente para introduzir variados ingredientes que são frescos para o género, mas que podem alienar um determinado tipo de espectadores. Isto porque esta é uma família pouco convencional, que ouve heavy metal, género que pauta toda a banda sonora do filme, e em que o pai (o sujeito tatuado e barbudo na imagem) é um pintor de grande habilidade. Curiosamente, acaba por ser por aqui que o filme se torna mais forte, com personagens bem desenvolvidas e interpretadas e cujo destino é realmente algo de importante para o espectador. E isso, além de ser espantoso por ser alcançado num filme de apenas 79 minutos, é bem raro no cinema de terror contemporâneo. Tudo isso, aliado a uma sequência final muito bem executada onde o realizador Sean Byrne demonstra bem a sua capacidade de filmar bom cinema, são argumentos bem fortes para que The Devil’s Candy se venha a tornar no futuro um filme de culto para um determinado nicho.

 

Bibliografia

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Autor: David Bernardino

Advogado e crítico de cinema, amante de tudo o que diz respeito à sétima arte. Do cinema mudo ao blockbuster, da comédia ao terror, todo o cinema pode e merece ter o seu lugar. Actualmente escreve no blog de cinema pessoal The Fading Cam e, claro, no webV, já tendo passado pelo Retroprojecção ou pelo Arte-Factos.

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